segunda-feira, 11 de junho de 2018

O que é Ocultismo - por Fernando Pessoa

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Não é segredo que durante sua vida, Fernando Pessoa (1888-1935), o poeta mais lido em Portugal e no Brasil, teve íntima ligação com as artes (ou ciências) ocultas, chegando a ter um encontro com o excêntrico e influente ocultista Alesteir Crowley, idealizador da filosofia de Thelema.

Vale ressaltar que Pessoa traduziu um dos poemas mais populares de Crowley, intitulado de Hino a Pã, inclusive em seu funeral, seguidores do ocultista recitaram tal poema em sua homenagem.

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[Para saber mais sobre Crowley clique aqui,
caso pretenda conhecer sobre a filosofia de Thelema clique aqui,
já realizei algumas postagens aqui no blog sobre o assunto].


Alguns dias atrás enquanto procurava livros interessante na biblioteca municipal de minha cidade, me deparei com um que me chamou atenção pelo título: Poesias Ocultistas, livro esse organizado por João Alves das Neves. O que me surpreendeu mais ainda foi o fato da obra ser referente à Fernando Pessoa.

O prefácio da obra faz um breve resumo acerca da persona de Pessoa, seu envolvimento com o ocultismo e no que isso influi em sua obra, é possível encontrar até mesmo o mapa astral de Fernando Pessoa feito pelo mesmo.

Além desse breve e intenso prefácio, nos deparamos com uma seleção de inúmeras poesias de autoria do poeta, todas elas com referências ocultas ao qual só aqueles que "portam a luz" podem compreender, mas até mesmo os que habitam a escuridão poderão enxergar uma faísca de luz em cada verso contido nesta obra.

O foco aqui é falar sobre ocultismo com base na visão "pessoana", portanto deixarei a seguir a introdução que antecede os poemas do livro Poesias Ocultistas onde o próprio Fernando Pessoa define, em suas palavras, o que seria ocultismo para ele.

[...]


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A regra do Oculto

A grande regra do Oculto é aquela do Pimandro de Hermes: "O que está embaixo é como o que está em cima." Assim a organização das Baixas Ordens copia, guardadas as diferenças obrigatórias, a organização das Altas Ordens; reproduzem-se os mesmos transes, por vezes as mesmas espécies de símbolos; o sentido é outro menor, mas a regra da semelhança tem que ser mantida, pois, do contrário, a ordem menor não vive e abatem, por si, as ordens do seu templo. Parece, às vezes, que é dos graus simples que se desenvolvem os altos graus que as altas ordens foram buscar (alargando o sentido) os seus áditos e cursos. Não é, porém, assim. Vemos o caminho como o trilhamos, mas foi de lá para cá que ele foi construído.

... O que Deus fez oculto (se Deus fez cousa oculta) é para se conservar oculto. Se não, ele tê-lo-ia feito claro.

O atual movimento ocultista resulta:

a) da desagregação do cristianismo, que luta, a todo o transe, para se conservar sob todas as formas que lhe apareçam,

b) da nossa civilização internacional que tornou possível aos elementos emanantes da civilização como as da Índia e da China chegarem até nós,

c) da incapacidade de uma geração neurastenizada pela rapidez excessiva do progresso moderno, industrial, cultural e científico, em se adaptar de pronto ao tipo de mentalidade que é necessário que corresponda às ideias-fontes desse progresso.



Esotérico/Exotérico

Afinal o conteúdo dos mistérios resume-se em ensinamentos sobre três ordens de coisas, que sempre se julgou que não devem ser reveladas ao geral dos homens.

... esses ensinamentos se deveriam dividir em duas ordens: exotéricos ou profanos os que são expostos de modo a que todos possam ser ministrados; esotéricos ou ocultos os que, sendo mais verdadeiros, ou inteiramente verdadeiros, não convém que se ministrem senão a indivíduos previamente preparados, gradualmente preparados, para os receber. A essa preparação se chamava, e chama, iniciação. E esta iniciação é ela mesma gradual em todos os mistérios, e de tal modo disposta que o indivíduo inapto para receber esses ensinamentos ocultos se revela tal antes que eles lhe sejam inteiramente dados.

... Seja como for, o certo é que os ensinamentos ministrados nos mistérios abrangem três ordens de coisas:

1) a verdadeira natureza da alma humana, da vida e da morte,

2) a verdadeira maneira de entrar em contato com as forças secretas da natureza e manipulá-las.

3) a verdadeira natureza de Deus ou dos Deuses e da criação do mundo.



Teosofia

Recentemente tem tomado um grande relevo pelo mundo a propaganda da religião chamada Teosofia. Essa religião pretende ser a da Verdade; se não tivesse essa pretensão não seria uma religião. Pretende estar por detrás de todas as religiões. Pretende ser a depositária das antigas doutrinas ocultas; pretende representar uma comunicação para o exterior feita pelos chamados 'Mestres'.

... A Teosofia, afinal, não passa de um sistema de filosofia hindu que, por tipicamente vago e lato, se adapta perfeitamente à ciência moderna, como de resto, a ela se adaptaria se por acaso ela fosse precisamente o contrário quanto aos princípios em que assentou.



Mistiscismo e Magia

O Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição).
A magia a transcender o intelecto pelo poder; 
a Gnose, a transcender o intelecto por um intelecto superior.

Mas para verdadeiramente transcender uma coisa, é preciso primeiro passar através dela.

A vantagem do caminho gnóstico é haver menor tentação de atingir o intelecto superior sem passar pelo inferior - já que ambos são intelecto e há uma diferença de quantidade entre um e outro - do que nos caminhos místico e mágico, onde há uma diferença de qualidade, não de quantidade, entre emoção e intelecto, entre a vontade e o intelecto.



Símbolos e Ritos

Todos os símbolos e ritos dirigem-se, não à inteligência discursiva e racional, mas à inteligência analógica. Por isso não há absurdo em se dizer que, ainda que quisesse revelar claramente o oculto, se não poderia revelar, por não haver para ele palavras com que se diga. O símbolo é naturalmente a linguagem das variedades superiores à nossa inteligencia, sendo a palavra naturalmente a linguagem daquelas que a nossa inteligência abrange, pois existe para as abranger.



A Cabala

No espírito confuso de muitos a Cabala tem a preminência de uma verdade. A Cabala, porém não é necessariamente uma verdade. Pode sê-lo. É tão somente uma especulação metafísica feita sobre dados mais completos do que os que o filósofo profano ordinariamente tem. É sujeito aos mesmos perigos de erro e de ilusão que as especulações profanas, pois as melhores premissas não dão aos especuladores a lógica ou o entendimento com que delas forçosamente extraiam melhores conclusões. Trabalhando sobre os dados mortos do mundo visível, pode Kant, por sua qualidade de Gênio, chegar-se mais à verdade do que o Rabbi Akiba, que tinha o poder de trabalhar sobre os dados vivos do grande invisível.



Números e Figuras

Sendo os números e as figuras os tipos externos da ordem e destino do mundo, a mais simples operação aritmética, algébrica ou geométrica, desde que seja bem feita, contém grandes revelações; e, sem precisão de mais sinais, na matemática estão as chaves de todos os mistérios. Isto não quer dizer - o que seria absurdo - que todos os matemáticos conscientemente nos estão comunicando os sinais de segredo, quando fazem os seus cálculos.



A Alquimia

A química oculta, ou alquimia, difere da química vulgar ou normal, apenas quanto à teoria da constituição da matéria; os processos de operação não diferem exteriormente, nem os aparelhos que se empregam. É o sentido, com que os aparelhos se empregam, e com que as operações são feitas, que estabelece a diferença entre química e alquimia.

... Como o físico (incluindo no termo o químico também), ao operar materialmente sobre a matéria, visa a transformar a matéria e a dominá-la, para fins materiais; assim o alquímico, ao operar, materialmente quanto aos processos mas transcendentemente quanto ás operações, sobre a matéria, visa a transformar o que a matéria simboliza, e a dominar o que a matéria simboliza, para fins que não são materiais.



O Satânico e o Mágico

Tudo é um. O satânico é tão somente a materialização do divino. A magia é uma só; a magia negra não é mais que a magia branca feita materialmente. (O culto fálico, quando entendido como símbolo, é divino; quando tomado literalmente é orgíaco, e portanto satânico.) Se conhecermos os processos da magia negra e os interpretarmos como símbolo, chegaremos ao conhecimento dos processos da magia branca.

"Deus é um espírito", diz a Bíblia: e o divino é (em relação a este mundo) espiritual. O Diabo é a matéria (corpo) e a Trindade Satânica: o Mundo, a Carne e o Diabo. O Diabo (Saturno) é a Limitação.



A Astrologia

A astrologia é verificável, se alguém se der ao trabalho de verificar. A razão porque os astros nos influenciam é uma questão a que é difícil dar resposta, mas não é uma questão científica. A questão científica é: influenciam ou não influenciam? A "razão por que" é metafísica e não tem que perturbar o fato, a partir do momento em que descobrimos que é um fato.



O Horóscopo

A vida é essencialmente ação, e o que o horóscopo indica é a ação que há na vida do nativo. Três coisas não há que buscar no horóscopo:

1) as qualidades fundamentais do indivíduo, quanto ao seu grau íntimo;

2) o ponto de partida social da sua vida;

3) o que resulta dele, e da vida que teve, depois da morte. Tudo menos isso o horóscopo inclui e define.

... Exemplificando melhor: um horóscopo de poeta dramático poderá ser determinado como tal; poderá, adentro desse horóscopo, ser indicada uma certa fama e um certo proveito. À parte isso, o horóscopo pode ser o de Shakespeare ou o de um poeta dramático de inferior nota, que, na época em que viveu, tenha tido uma vida, quanto a fama e proveito, idêntica ou semelhante à de Shakespeare. O horóscopo revela, pouco mais ou menos, o que o mundo vê. Nunca devemos esquecer este pormenor importantíssimo. Sem ele nada faremos da astrologia.



Iniciação

Aquilo a que se chama "iniciação' é a de três espécies: há primeiro, e no nível ínfimo, a iniciação exotérica, análoga à iniciação maçônica, e e que esta é o tipo mais baixo: é a iniciação dada a quem propriamente se não encaminha para ela, nem para ela se preparou (porque sugestão de outrem, o impulso externo, e a simples curiosidade não são preparações), e que serve para pôr o indivíduo em condições de poder dar-se o caminho esotérico, de poder buscar, pelo contato, embora esotérico, com símbolos e emblemas, o verdadeiro caminho.

O mais exterior e nulo dos sistemas iniciáticos - como é hoje a maçonaria - serve a este fim, logo que tenha conservado os fins pelos quais em nós se infiltra o primeiro conhecimento de oculto. O único fim com que os Rosa-Cruz instituíram a maçonaria exotérica é o de pôr muita gente em contato com, por assim dizer, o aspecto externo da verdade oculta, podendo assim aqueles, que se sintam aptos, ascender a ela lentamente.

Há depois, a iniciação esotérica. Difere da primeira, em que tem que ser buscada pelo discípulo, e por ele desejada e preparada em si mesmo. "Quando o discípulo está pronto", diz o velho lema dos ocultistas, "o mestre está pronto também."

Há, por fim, a iniciação divina. Esta, não dão nem exotéricos ou esotéricos menores, como a exotérica; vem diretamente, e por cima destes todos, das mesmas mãos, do que chamamos Deus.



A Maçonaria

... Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quanto à redação deles, certamente um produto do século XVIII inglês, em toda a sua chateza e banalidade.

... os dois primeiros graus maçônicos, menos simbólicos que emblemáticos, não conduzem definitivamente a coisa nenhuma; e o grande mistério do Grau de Mestre - que é, por assim dizer, a Rosa de toda a Cruz Maçônica - é um símbolo vital mas abstrato, que cada qual pode interpretar no sentido que entender. E assim de fato se tem interpretado - a ele e à parte simbólica dos outros dois - através do vasto esquema divagativo dos Altos Graus e dos Graus Velados - estes, aliás, já fora e além da Maçonaria.

... Não sou um maçom, nem pertenço a qualquer Ordem semelhante ou diferente. Não sou porém anti-maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçônica. A estas duas circunstâncias, que em certo modo me habilitam a poder ser imparcial na matéria, acresce a de que, por virtude de certos estudos meus, cuja natureza confina com a parte oculta da Maçonaria - parte que nada tem de político ou social -, fui necessariamente levado a estudar também esse assunto - assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora. (...)



Jacques de Molay

O suplício físico de Jacques de Molay, impotente para produzir nenhum resultado mais que baixamente material, desencadeou sobre a Igreja as forças mágicas que essa ação material era incompetente para dominar, servindo só para as desencadear.

... Num ponto, porém, a vingança de Molay, operando per vias inferiores, caíu no mesmo erro em que haviam caído os seus algozes. Foi quando D. Sebastião, A(depto) E(xempto), foi cair em Alcácer Quibir. (...)



Os Rosa-Cruz

... Os Rosa-Cruz (...), tendo de ministrar, embora veladamente, o mesmo ensinamento a outras populações, apresentaram-no de modo diverso. Não se referiram, senão de modo tão velado que só o compreendesse quem pudesse compreendê-lo, a Jesus, ao Adepto; apenas aludiram ao Cristo, ao Filho de Deus. Assim nada, no que diziam, feria fé católica ou cristã de seus leitores.



Deus

... O Criador do Mundo não é o Criador da Realidade:
em outras palavras, não é o Deus inefável, mas um Deus-homem ou Homem-deus, análogo a nós mas a nós superior.

... A dupla essência, masculina e feminina, de Deus - a Cruz. 
O mundo gerado, a Rosa, crucificada em Deus.


Fonte: Livro Poesias Ocultistas,  por João Alves das Neves, 
4° Edição - 1995

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