segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Obras para ler antes de morrer: A Divina Comédia

A Divina Comédia, de Dante Alighieri

A Divina Comédia é uma obra clássica da literatura mundial, trata-se de um poema de viés épico e teológico, escrito por Dante Alighieri no século XIV e dividido em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

Foi escrito originalmente em italiano vulgar e não em latim como era comum à época, trata-se de um poema articulado por trilogias, entre elas as formadas por Razão/Humano/Fé, Onça/Leão/Loba, Pai/Filho/Espírito Santo.

Não há registro oficial da data exata em que foi produzido, mas as opiniões mais veementes asseguram que o Inferno pode ter sido composto entre 1304 e 1307-1308, o Purgatório de 1307-1308 a 1313-1314 e, por último, o Paraíso, de 1313-1314 a 1321 (esta última data coincide com a morte de Dante).

O poema  descreve uma viagem onde se sucedem diversos acontecimentos. Sua força está na riqueza das alegorias, que tornam o fantasioso relato atemporal.


CONTEXTUALIZAÇÃO

Dante escreveu a "Comédia" - um poema de estrutura épica, com propósitos filosóficos - no seu dialeto local, o florentino, que é uma variedade do toscano. 

O poeta demonstrou que o florentino, uma língua vulgar (em oposição ao latim, que se considerava como a língua apropriada para discursos mais sérios), era adequado para o mais elevado tipo de expressão, estabelecendo-o como italiano padrão. De fato, é a matriz do italiano atual.

Há quem veja A Divina Comédia como a Suma Teológica
de São Tomás de Aquino, sintetizada em verso.

Grandes pintores de diferentes épocas criaram ilustrações para a Divina Comédia, destacando-se Botticelli, Gustave Doré e Dalí, 
como vocês podem conferir abaixo:

A Divina Comédia por Sandro Botticelli

Representações de Sandro Botticelli da Divina Comédia.


A Divina Comédia por Gustave Doré.

Algumas representações de Gustave Doré da Divina Comédia.


A Divina Comédia por Salvador Dalí.

Representações de Salvador Dalí da Divina Comédia.


A Divina Comédia é a fonte original mais acessível para a cosmovisão medieval, que dividia o Universo em círculos concêntricos. A obra moderna mais conhecida a respeito dessa cosmovisão é "The Discarded Image", de C. S. Lewis, 
com ilustrações de Gustave Doré.

Explicações sobre o sentido do simbolismo na obra são complexas e muito debatidas, como é o caso de se saber exatamente o significado da amada Beatriz: seria ela apenas um amor carnal, o estado, a igreja, o amor metafísico ou outro? O próprio Dante confirma esta complexidade afirmando que a obra possui quatro sentidos sobrepostos: literal, moral, alegórico e místico.

Se você não conhecia o poema e chegou até esse ponto do artigo, já é perceptível que não se trata de uma simples leitura, porém, uma obra que exige um estudo aprofundado para compreendê-la em sua plenitude.



ESTRUTURA

Cada uma das três partes do poema [Inferno, Purgatório e Paraíso] está dividida em 33 cantos, com mais um a título de introdução, a obra soma 100 cantos, número que significaria a perfeição da perfeição. 

Além do próprio Dante, três são os personagens principais: Virgílio, guia no inferno e purgatório, Beatriz guia no paraíso terrestre e São Bernardo, guia nas esferas celestes. A obra soma também 14.233 versos em, a partir de então chamados, "tercetos dantescos".



SINOPSE

A Divina Comédia propõe que a Terra está no meio de uma sucessão de círculos concêntricos que formam a Esfera armilar e o meridiano onde é Jerusalém hoje, seria o lugar atingido por Lúcifer ao cair das esferas mais superiores e que fez da Terra Santa o Portal do Inferno. 

Portanto o Inferno, responderia pela depressão do Mar Morto, onde todas as águas convergem, e o Paraíso e o Purgatório seriam os segmentos dos círculos concêntricos que juntos respondem pela mecânica celeste e os cenários comentados por Dante, num poema envolvendo todos os personagens bíblicos do Antigo ao Novo Testamento, que são costumeiramente encontrados nas entranhas do Inferno sendo que os personagens principais da Divina Comédia são o próprio autor, Dante Alighieri, que realiza uma jornada espiritual pelos três reinos do além-túmulo, e seu guia e mentor nessa empreitada, Virgílio - 
o próprio autor da Eneida.



INFERNO

Inferno em A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Inferno, segundo Dante.


Dante e Virgílio chegam ao vestíbulo do Inferno (que tem nove círculos). 

Entre o vestíbulo e o 1° Círculo, está o rio Aqueronte, no qual se encontra Caronte, o barqueiro que faz a travessia das almas, mas Dante é muito pesado para fazer a travessia no barco de Caronte, pelo fato de ser vivo. 

Porém, Virgílio adverte o mitológico barqueiro de que a travessia do rio através de seu barco é mister devido a uma ordem celeste. É através deste barco que Virgílio e Dante atravessam o rio.

O limbo é o local onde as almas que não puderam escolher a Cristo, mas escolheram a virtude, vivem a vida que imaginaram ter após a morte. Não têm a esperança de ir ao céu pois não tiveram fé em Cristo. Aqui também ficam os não batizados e aqueles que nasceram antes de Cristo, como Virgílio. 

Na mitologia clássica, o Limbo não fica no inferno, mas suspenso entre o céu e o mundo dos mortos. Na poesia de Dante não se tem uma noção precisa de como se chega lá, pois o poeta desmaia no ante-inferno e quando acorda já está no Limbo, o primeiro círculo infernal.

No Limbo, Dante encontra Homero (século IX a.C. ou século VIII a.C.) a quem tradicionalmente se atribui a autoria dos poemas épicos Ilíada, que narra a queda de Troia, e Odisseia, que narra o retorno de Ulisses da guerra de Troia e suas viagens; Ovídio (43 a.C. a 17 d.C.) poeta romano autor de várias obras, entre as quais obras de mitologia como: Metamorfoses; e Horácio (65 a.C. a 8 d.C.) poeta romano lírico e satírico, autor de várias obras primas da língua latina, entre as quais Ars Poetica.

No segundo círculo começa o Inferno propriamente dito. Nesse círculo ficam os luxuriosos que sofrem com uma tempestade de vento. Lá ele encontra Francesca de Rimini e seu amante, que é o seu cunhado.

Dante e Virgílio no Inferno, pintura de William-Adolphe Bouguereau.

Dante e Virgílio no Inferno, por William-Adolphe Bouguereau.


No terceiro círculo os gulosos são flagelados por uma chuva putrefacta e são vigiados pelo mitológico cão de três cabeças, Cérbero. No quarto círculo desfilam os avarentos empurrando pesos enormes. No quinto círculo ficam os iracundos, imersos em lama ardente do Pântano do Estige. Os insolentes soberbos também.

Para atravessar o pântano eles apanham boleia do demônio Etagias, este os deixa na porta da cidade de Dite. Essa cidade tem muralhas de fogo e está na parte mais funda do Inferno, onde as culpas são muito mais fortes e as punições também. Os demônios não querem que Dante nem Virgílio entrem, pois Dante não está morto. Então aparecem as três Fúrias, e com elas aparece a Medusa, que petrifica quem a olhe. Um enviado celeste chega e abre as portas de Dite.

No sexto círculo, Dante e Virgílio recomeçam a viagem por dentro de Dite. Lá eles vêem nos túmulos de fogo os hereges. Os hereges eram queimados em fogueiras quando estavam vivos. Em rios de fogo estão os assassinos, os violentos com o próximo e ficam sendo atingidos por flechas dos centauros. Os violentos contra si mesmos são transformados em árvores. Os esbanjadores são perseguidos e devorados por cadelas ferozes e famintas.

No sétimo círculo ficam os violentos com Deus e contra a natureza. Estão deitados e levam chuva de fogo e os outros além da chuva de fogo ficam caminhando. Os usurários (agiotas) estão sentados e sofrem a chuva de fogo.

Saindo da cidade encontram um precipício que não conseguem cruzar, existe um monstro alado, que voa vagarosamente e os leva até o o fundo do precipício e lá eles encontram o oitavo círculo. O oitavo círculo é dividido por dez fossos que são ligados por pontes. Aqui as torturas só pioram e os pecados também. Nas saídas dos fossos há três gigantes acorrentados.

No último círculo infernal (nono) não há fogo, e sim frio. Lá ficam os traidores. Os três maiores são Judas, Brutus e Cássio Longino. Lúcifer está lá e devora os três. Então eles finalmente chegam ao centro da Terra e começam a subir para a saída. Nesse túnel eles vislumbram quatro estrelas, o Cruzeiro do Sul (isso mostra que o paraíso fica ao sul do Equador).

 Para chegar ao Paraíso é necessário antes passar pelo Purgatório.



PURGATÓRIO

Purgatório em A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Purgatório, segundo Dante.


O Purgatório é um espaço intermediário entre o Paraíso e o Inferno, que se encontra na porção austral do planeta onde existe uma única ilha, Dante encontra nesta ilha uma montanha composta por círculos ascendentes, reservado àqueles que se arrependeram em vida de seus pecados e estão em processo de expiação dos mesmos. No Purgatório as almas assistem às punições das outras almas que por pecarem mais "intensamente" foram para o Inferno.

O Purgatório, geograficamente, se divide em 6 partes:

1. O Rio Tibre, onde um anjo em uma barca leva as almas até o Purgatório.

2. O Ante-Purgatório, onde estão as almas dos arrependidos no último instante.

3. O Baixo Purgatório, onde estão as almas daqueles que perverteram o amor.

4. O Médio Purgatório, onde estão as almas daqueles que não amaram.

5. O Alto Purgatório, onde ficam aqueles que amaram em excesso.

6. O Paraíso Terrestre, ou o Jardim do Éden.

Ao contrário do Inferno, onde os pecados que aparecem no início são os mais leves e quanto mais se desce, mais graves eles ficam, no Purgatório, os piores pecados aparecem no Baixo Purgatório e os menores, no Alto

No início da subida da montanha estão esperando arrependidos tardios, que têm que aguardar a permissão para passarem pela Porta de São Pedro antes de iniciarem sua ansiada subida. Cada um dos sete círculos correspondem a um dos sete pecados capitais, na seguinte ordem: Orgulho, Inveja, Ira, Preguiça, Avareza junto ao Pródigo, Gula e Luxúria

Os Avarentos e Pródigos estão juntos no mesmo círculo, pois são os dois extremos, onde o avarento supervaloriza o dinheiro e o Pródigo o desperdiça.

No fim do Purgatório, Dante se despede de Virgílio, pois este, por ter sido pagão, não pode ter acesso ao Paraíso. Lá encontra Beatriz, sua amada quando estava na Terra. Esta o leva até o rio Lete. Quando Dante bebe a água do Lete, esta apaga a sua memória, seus pecados, é como se Dante tivesse renascido. 

Existe uma lenda que diz que o Paraíso fica entre o rio Tigre e o Eufrates. 

Quando Dante vê o rio, ele julga ser o Tigre, no atual Iraque. 
Finalmente, Dante chega ao Paraíso.



PARAÍSO

Paraíso em A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Paraíso, segundo Dante.


Existem sete céus móveis, cada céu corresponde a um planeta,
sendo o primeiro o da Lua.

 Em cada um dos céus Dante é abençoado e depois vai ao encontro de Deus.

O oitavo céu, ou o primeiro céu fixo, é onde as estrelas têm a configuração que vemos no "nosso" céu. Depois vão para o segundo céu fixo, ou nono céu, que é o céu Cristalino ou seja, não tem estrelas, é quase só luz, mas é material. 

O décimo céu é só luz, é o terceiro céu fixo, e é imaterial. 

No centro desse céu há uma rosa branca, que é Deus rodeado por almas, espíritos bons (eleitos, bem aventurados, santos, anjos). É uma rosa poética. 

No centro da rosa existe um triângulo, a Santíssima Trindade. São Bernardo acompanha Dante a partir do terceiro céu. Dante então vê Deus, pois São Bernardo intercede junto à Virgem Maria e esta concede sua visita.

Representação do Paraíso em A Divina Comédia, por Gustavo Doré.

Canto XXXI, por Gustave Doré.


As dez esferas do paraíso:

1. A esfera da Lua é a de almas que foram virtuosas mas abandonaram seus votos, e assim foram insuficientes na virtude da coragem (Cantos II a V). Dante encontra Piccarda, irmã do amigo de Dante, Forese Donati, que morreu pouco depois de serem separados pelo convento. Beatriz discute sobre a liberdade da vontade e da inviolabilidade dos votos sagrados.


2. A esfera de Mercúrio é das almas que fizeram bom uso de seus desejos de fama, mas que, sendo ambiciosos, foram insuficientes em virtude da justiça (Cantos V a VII). Justiniano reconta a história do Império Romano. Beatriz explica a Dante a reparação de Cristo pelos pecados da humanidade.


3. A esfera de Vênus é das almas que fizeram bons usos do amor, mas foram insuficientes na virtude da temperança (Cantos VIII e IX). Dante encontra Carlos Martel de Anjou, que condena aqueles que adotam vocações inadequadas. Folquet de Marselha aponta para Raabe, a alma entre as mais brilhantes desta esfera, e condena a cidade de Florença por produzir a 
"flor maldita" (o florim), que é responsável pela corrupção da Igreja.


4. A esfera do Sol é das almas dos sábios, que personificam a prudência (Cantos X a XIV). Dante é guiado por São Tomás de Aquino, um dominicano, que narra a vida de São Francisco de Assis e lamenta a degradação de sua própria Ordem dos Pregadores. Dante passa então a ser atendido por São Boaventura, um franciscano, que narra a vida de São Domingos e lamenta a corrupção da Ordem Franciscana. 

As duas ordens não foram sempre amigáveis na terra e ao retratar um membro de uma ordem elogiando o fundador da outra e lamentando o destino de sua própria mostra aos outros o amor presente no céu. Alberto Magno, Pedro Lombardo e Siger de Brabante estão entre os incluídos.


5. A esfera de Marte é formado pelas almas que lutaram pelo o cristianismo e que encarnam a coragem (Cantos XIV a XVIII). As almas desta esfera formam uma enorme cruz. Dante fala com a alma do seu antepassado, Cacciaguida, que elogia as virtudes do ex-moradores de Florença, narra a ascensão e queda de famílias florentinas e anuncia o exílio de Dante de Florença, antes de finalmente introduzir algumas almas guerreiras notáveis (entre eles Josué, Rolando, Carlos Magno e Godofredo de Bulhão).


6. A esfera de Júpiter é o de almas que personificaram a justiça, algo de grande interesse para Dante (Cantos XIX a XX). As almas aqui anunciam em latim: "Amem a justiça, vós que julgais a terra", e depois arranjam-se na forma de uma águia imperial. Aqui presentes estão David, Ezequias, Trajano (que teria se convertido ao cristianismo de acordo com uma lenda medieval), Constantino, Guilherme II da Sicília, e - Dante é surpreendido com isso - Rifeu de Troia, um pagão salvo pela misericórdia de Deus.


7. A esfera de Saturno é a dos contemplativos, que personificam a temperança (Cantos XXI e XXII). Dante encontra aqui Pedro Damião e discute com ele o monaquismo, a doutrina da predestinação e o triste estado da Igreja. Beatriz, que representa a teologia, torna-se cada vez mais adorável aqui, indicando a revelação mais próxima dos contemplativos sobre a verdade de Deus.

Dante e Beatriz, por Cristóbal Rojas.

Dante e Beatriz, nas margens do Letes, obra de Cristóbal Rojas.


8. A esfera das estrelas fixas é da Igreja triunfante (Cantos XXII a XXVII). Aqui, Dante tem visões de Cristo e da Virgem Maria. Ele é testado em sua fé por São Pedro, em sua esperança por São Tiago e em amor por São João Evangelista.


9. O Primum Mobile (Primeira esfera a ser movida), a última esfera do universo físico. Ela é movida diretamente por Deus e seu movimento provoca o movimento de todas as demais esferas que ela encompassa (Canto XXVII).


10. O Empíreo transcende, a partir do Primum Mobile, Dante ascende a uma região além da existência física, o chamado Empíreo (Cantos XXX a XXXIII). 

Aqui as almas de todos os crentes formam as pétalas de uma enorme rosa. Aqui, Beatriz deixa Dante com São Bernardo, porque a teologia terá atingido os seus limites. São Bernardo reza a Maria nome de Dante. Finalmente, Dante fica de frente com o próprio Deus e lhe é concedida a compreensão das naturezas Divina e Humana. Sua visão está além da compreensão humana. Deus aparece como três círculos que representam o Pai, o Filho e o Espírito Santo com a essência de cada parte de Deus, mas cada um separado.

 O livro termina com Dante tentando compreender como os círculos se encaixam, como o Filho é separado, mas ainda uno com o Pai, mas, como o próprio Dante coloca, este "não é um vôo para as minhas asas".


Referências: Wikipédia

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