O Balanço da Canoa - Conto de Fantasia


Ela pensava em mil e uma coisas ao mesmo tempo, e tomando consciência de seus próprios pensamentos, sua própria consciência, não pensava em nada, como em um paradoxo, ou melhor, uma oscilação, como o leve tremor da canoa que fluía juntamente com o rio entre o pequenos espaço em que, junto ao seu Caronte, navegava, a paisagem à frente parecia uma pintura, digna da apreciação de Van Gogh, mas quanto mais se aproximavam do horizonte, mais ele ficava distante, como uma serpente mordendo a própria cauda, Ouroboros
.

Em volta, incontáveis plantas e árvores, algumas verdes e com uma vivacidade úmida, já outras secas e quase desfazendo-se, como uma árvore desmatada ou um corpo em decomposição, observando a natureza ao redor, enquanto navegava, ela observava melhor a si mesma, a cada remada do Caronte, ela percebia um aspecto diferente de si mesma e do mundo, a cada leve curva dava-se conta dessa linha que permeia tudo e nada, sentada na beira do barco, molhando apenas seus pés. 

No balanço da canoa feita de um velho carvalho que agora nada, tudo ali parecia surreal, e não era mais que o real, sem concepções ou filtros, preconceitos ou definições, as coisas apenas eram, e enquanto ela contemplava o mundo via a si mesma, nos outros via aspectos de si, e o aprendizado era o seu próprio professor. A vida ensina, a morte dá coragem, força para remar, coragem para seguir em frente, mesmo que tempestades surjam ou curvas se tornem sinuosas.

"Não se trata de pessimismo ou otimismo" - ela pensou - "É mais uma questão de viver, de verdade, não apenas fingir, esconder-se por trás de máscaras, manter-se preso à casulos, sobrevivendo, ao invés, encarar o desconhecido com brilho no olhar, experiência, evoluir e aprender, sentindo e não apenas pensando, seu coração pulsava, ela sentia o ar puro do ambiente penetrar seus pulmões os enchendo, fazia um bom tempo que não percebia que o tempo não é nada mais do que o próprio momento, sonambula, acordou com o tremular da canoa.

E assim, em mais um dia, prosseguiu.

(Continua..)


Por: David Alves Mendes

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